Blue Period, Bakuman e um novo olhar para nossas Carreiras

Blue Period, Bakuman e um novo olhar para nossas Carreiras

Blue Period

Nas últimas semanas, tenho lido uma obra cuja adaptação da Netflix me tocou mais do que deveria: Blue Period.

O mangá de Tsubasa Yamaguchi conta a história de Yatora Yaguchi, um delinquente japonês no ensino médio que, contra intuitivamente, tira notas altas e, socialmente, sente que precisa vestir uma máscara para ser legal com seus amigos quando está com eles, chegando até a fumar e virar a noite para que eles se sintam bem.

Nas palavras dele: "De um tempo para cá, percebi que coisas como aumentar minhas notas ou me dar bem com as pessoas... são tão divertidas quanto completar uma quest de RPG. Para conseguir isso, eu me esforço muito mais do que os outros e, então, acabo obtendo resultados nada além disso."

Até que, em resumo, ele tem que desenhar sua paisagem favorita em sua aula de artes, aula que ele usava estrategicamente somente para dormir, e durante uma série de encontros com expressões artísticas, decide pintar o céu azul do amanhecer de Shibuya. E aí isso acontece:

Ao se conectar com a obra em que ele pintou e as pessoas entenderem a obra dele como arte, ele chora e reflete: "Arte é algo muito divertido, é uma linguagem que não usa palavras. Pela primeira vez na minha vida, senti que consegui me conectar com alguém."

E a partir disso, ele decide ir atrás de se tornar um artista e, para isso, tem que passar em um vestibular da única universidade pública no Japão. Porque qualquer outra universidade seria cara demais para os pais dele.

O mais engraçado é que, no segundo capítulo, quando ele pergunta para a professora de artes como se garantir em uma carreira de artes, além da professora falar várias críticas ao sistema vigente como: "Não há garantias de emprego em uma faculdade normal e no mundo do freelance, pessoas da arte já têm a iniciativa". Ela fala uma frase extremamente contundente: “Além disso, pensar dessa forma é um pensamento tipicamente adulto, não acha?”

Jovens deveriam fazer o que têm paixão, em vez de pensar nas responsabilidades.

Bakuman

Isso me lembrou outra obra: Bakuman, também ligada à arte, feita pelos mesmos autores do aclamado Death Note, sobre dois jovens adolescentes que decidem seguir o sonho e entrar na cruel indústria de mangás onde, nos primeiros capítulos, o mais cético deles se nega a seguir o sonho pela experiência anterior do tio, que se afundou em dívidas e acabou morrendo por excesso de trabalho. Seu futuro parceiro de obra o indaga: "Você só está no 9º ano. Pensando assim, não irá perseguir os seus sonhos e sim acabar em um emprego que odeia!"

O que faz o personagem sair dessa inércia é seu interesse romântico e como esse romance ressoa com a história do seu falecido tio, fazendo ele ter uma nova perspectiva sobre o conceito de seguir atrás dos seus sonhos.

O titulo

Algumas pessoas devem estar se perguntando por que o título Blue Period. Ele se deve, na verdade, a um momento específico de Pablo Picasso, chamado pelos especialistas de período azul. Esse período é muito importante na vida de Picasso, apesar de ser extremamente breve (1901-1904), em que o artista usa a depressão (daí vem o termo blue) e a arte como catarse para lidar com todo o período.

Nessa época, Picasso tinha somente 20 anos e, com 19 anos, tinha saído da Espanha para Paris acompanhado do seu amigo Carles Casagemas, esse que tinha imenso amor por uma mulher chamada Germaine Gargallo. Enquanto Pablo fazia uma visita a Barcelona, Casagemas se declarou publicamente para Germaine em um café em Paris e lhe pediu em casamento, que o negou, fazendo então Casagemas atirar em Germaine e atirar na própria cabeça.

Esse acidente foi o estopim para a Era do Blue Period de Picasso com a obra o Enterro de Casagemas, quadro esse que apesar de nao ter uma grande quantidade de azul, tem cores mórbidas no corpo do amigo, cinzas e uma única cor forte no fundo.

As cores azuis vão ser a grande marca do Blue Period, que vai tratar coisas muito presentes na vida do Picasso nessa época, como morte, envelhecimento, pobreza, o papel da mulher, etc.

Podemos inclusive ver as diferenças entre os períodos do Picasso em seus respectivos autorretratos e claramente destacar claramente o blue period entre eles.

Um novo olhar para nossas carreiras

Onde tudo isso se conecta é que, como um homem negro de periferia que sente o amor de criar jogos desde os 5 anos de idade, esses três pontos ressoam fortemente na minha visão de mundo. Em um mundo onde há várias pessoas falando sobre o que estudar, como estudar, fazer faculdade ou não fazer, inteligência artificial e, mais importante, fazer o que ama ou fazer o que dá dinheiro, as pessoas esquecem que só elas vão passar pelo que elas têm que passar e que, na maior parte dos casos, tudo pode ser uma fase.

Picasso, antes de virar o mestre do cubismo e um dos melhores pintores do mundo, passou por um período azul, entre outros. Yatora tinha o objetivo de entrar em uma grande faculdade de artes e, para fazer isso, passou por diversas etapas, como cursinhos, testes, encontros, tutorias, etc.

Para atingirem seu objetivo de lançarem um mangá de sucesso que seria adaptado em um anime, os personagens de Bakuman também passaram por diversas fases, entenderam como funciona a indústria, concursos, histórias de um capítulo (one-shots), serem assistentes de outros autores, publicarem um mangá, serem cancelados, etc.

Por exemplo eu tenho o objetivo de ser game designer um dia e, para isso, já fiz faculdade, saí, entrei de novo, fui lojista de jogos, descobri um amor que é programar e atuo na indústria de software há 7 anos, e sigo a trajetória que sei que vai me levar a fazer jogos.

A questão no final é: tome suas próprias decisões, mas entenda que você vai passar por períodos azuis, vai sair do caminho, mas pode voltar a qualquer momento, alguns mais difíceis do que outros. Sempre tenha seu grande objetivo em mente e tenha calma. Não existem receitas prontas e tenha em mente que, quando o seu objetivo for alcançado, ele pode não ser um sucesso absoluto, e está tudo bem.

Para terminar, venho com uma página do mangá que abriu esse texto que ilustra bem o que quero dizer: decidir fazer o que ama não garante diversão, mas não impede que você deva fazer. Quem decide isso é você, e tudo bem se não decidir não quiser.

Acho que, na verdade, o que aprendi com esses anos e o que todos esses "personagens" também aprendem de certa forma é o quanto ser egoísta é o que nos garante um caminho para trilhar. E quando eu digo egoísta, não é o jeito capitalista da coisa, de pensar em você acima dos outros, mas sim pensar em você apesar dos outros. É sobre se divertir pintando, programando, fazendo vídeos, escrevendo ou, no final, seguindo seu caminho.

Se gostaram pessoal, deem like e compartilhem para mostrar suporte e recomendo assistir Blue Period, como falei está lá no grande streaming vermelho!

Bibliografia